Mostrando postagens com marcador Contos e Narrações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos e Narrações. Mostrar todas as postagens
09 agosto 2010
Peripécias de um cão sarnento.
- Aêê!
Adentrara o primeiro bar que encontrou pela frente. Sua animação característica chamou bastante a atenção alheia, uma vez que esbarrou em todos que encontrou pelo caminho antes de atingir o centro do salão.
Em outro ponto, estava Alphonse, um homem alto, de longos cabelos escuros, sempre usando o tapa-olho, que finalizava uma conversa com uma moça qualquer e voltava sua atenção para as garrafas que tinha ali. Em seguida, notou atrás de si uma voz um tanto quanto familiar. Olhou e avistou a ruiva, sua capitã. Como sempre, era um tanto quanto desajeitada e meio desligada das coisas. Preferiu ficar quieto, não atrair a atenção. Chamou o garçom com o aceno de sua mão, logo, pedindo que ele lhe trouxesse uma garrafa de rum.
- AAAAAAAAAAL-CHAN!
Assim que avistou o companheiro, e extravagante como ela só, desatou a correr na direção dele. Largou todo o seu peso em cima de Alphonse, sem se importar em gritar e incomodar quem quer que estivesse ali. Era muito bom encontrar um conhecido em um local como aquele, principalmente se esse conhecido era o seu subcapitão, a quem ela tinha o costume de incomodar, embora ela acabasse por achar uma maneira de passar o tempo caso não o tivesse percebido.
- Al-chan, que bom te ver! – O apelido carinhoso pelo qual ela o chamava estava sempre presente em suas falas, o que demonstrava, mesmo para quem não os conhecesse intimamente, que ela tinha especial carinho por aquele homem.
Aquele grito foi como um trovão no meio do mar, uma tempestade que estava apenas começando. Alphonse suspirou, já de maneira cansada, sabendo o que iria aturar pela frente. A garrafa de rum havia chegado logo que a ruiva o abraçou. Ele não moveu-se nem um centímetro para frente. Cerrou os olhos, parecendo reunir toda a paciência que lhe restava.
- Olá, capitã...
A ruiva, entretanto, aparentemente não percebeu o tom de descaso na voz do companheiro. Estava animada demais para notar. Seus olhos corriam por todo lugar, ela parecia ter milhões de idéias na cabeça que queriam sair todas ao mesmo tempo, como um surto. Era assim o seu estado natural. Se deveria estranhar quando não a vissem assim.
- Nani? Você parece cansado. Al-chan, já visitou a taberna ali da esquina? É muito boa, muito boa mesmo...
E ela desatou a falar, falava tanto que nem respirava. A verdade é que era hiperativa, quase sempre estava assim, embora quase nunca sob efeito de álcool. Sorridente, deu um beijo no rosto do companheiro, depois de passar quase meia hora falando sem parar.
- Sabe, Al-chan, os homens dessa cidade são muito malvados. Acredita que eu fui no mercado comprar alguns suprimentos pra nossa próxima viagem, e um homem tentou me bater? Sabe, ele era enorme... – disse, erguendo e balançando os braços para demonstrar o tamanho, tão serelepe e infantil.
Nos primeiros minutos, Alphonse tentou ignorar todo aquele falatório da ruiva ao seu lado. Mesmo após o beijo que o deixou somente um pouco sem jeito, juntou toda a paciência para aguentar aquilo. Entretanto, na última palavra da garota, o pirata voltou a ter o olhar sério. Virou sua face para a ruiva, mantendo o seu único olho totalmente atento a ela.
- Espere, você disse “bater”?
Ela, no entanto, pareceu não ligar para o fato de que ele não escutara uma palavra do que ela havia dito, quase sempre era assim, o que não a desanimava a continuar falando feito uma matraca. Virou-se para ele e fez que sim com a cabeça, freneticamente.
- Haaai! Porque eu ia comprar um tamarindo, e só tinha um, e o cara queria que eu desse meu tamarindo pra ele, e... sabe... eu não quis dar porque eu comprei e eu adoro tamarindo. Aí ele me bateu.
- Ele te bateu como? Só diga, não me mostre.
Melhor previnir do que remediar, foi o que ele pensou. Sabia muito bem como Mina era e se não especificasse, ela iria mostrar alguma parte do corpo que não devia ou iria bater no seu subcapitão, coisa que não duvidava. Virou-se totalmente para ela, ainda sentado, prestando atenção nas palavras da ruiva.
- Err...
Pensou durante alguns segundos, recordando a cena. Voltou a si e fez sinal que iria demonstrar com mímica. Com a mão direita, ela agarrou o próprio pescoço e começou a se debater, demonstrando que primeiro o homem a agarrou pelo pescoço e ela tentou se libertar. Depois, soltou o pescoço e fez o gesto de um soco, indicando que havia socado o homem. Em seguida, repetiu o mesmo gesto na barriga, finalizando ao dizer que ele a socou no estômago e ela ficou sem ar.
- Foi mais ou menos assim, Al-chan.
Alphonse a olhou com um certo ar de desaprovação, mas decidiu engolir. Preferia que ela falasse ao invés da mímica, entretanto, era sagaz, conseguiu entender o que ela queria dizer. Imaginou o porque de um rapaz tão grande querer o tal tamarindo da garota, apostaria pelo menos metade do que tinha que ele queria algo a mais do que a fruta somente. Coçou o queixo, levantando-se. Era ligeiramente mais alto que ela. Aproximou-se um pouco e a olhou diretamente no rosto, tendo agora um tipo de olhar diferente, meio calmo, mas com um quê de preocupação.
- Você ainda está machucada?
- Ah, doeu mais na hora. Eu tive dificuldade para respirar por um bom tempo. Minha barriga ainda dói um pouco, mas eu estou bem. Daijoubu nee, Al-chan. – meiga, balançou a cabeça em sinal positivo, sempre sorridente.
Alphonse pensou que não tardaria para ter uma conversa pessoal com o tal homem. Não tinha muito medo dessas coisas e era normal ver Mina agindo daquele jeito. Sabia que se dissesse para ela que iria cuidar do rapaz ela iria intervir e dizer que não valia a pena e coisas do tipo. Entretanto, para não deixar pista de que iria fazer algo à respeito, decidiu comentar sobre algo que a distraísse.
- Eu te compro uma cesta de tamarindos. Que tal?
O homem esboçou um pequeno sorriso, algo muito raro de se ver no rosto do subcapitão. Talvez aquele fosse o primeiro sorriso que Mina via no rosto de Alphonse.
- Hontoni, Al-chan? Sabe, eu adoro tamarindos. Quando eu era pequena, eu ouvia as pessoas falando e pensei "que nome estranho, tamarindo", e sabe, eu sempre quis comer, então eu fui e comprei, e...
Estava começando a falar demais de novo, então decidiu se calar e somente agradecer a ele. Sabia que seu falatório o incomodava às vezes. No entanto, o sorriso que ele esboçara chamou a atenção da ruiva, era a primeira vez que o via sorrir, pelo menos de uma forma tão sincera. Achou bonito.
- Arigatou, Al-chan.
O sorriso, no entanto, foi desaparecendo do semblante do pirata. Apenas manejou com a cabeça para ela, de modo que dissesse que não precisava agradecer. Logo, voltou a sentar no seu lugar, cerrando os olhos, tomando um pequeno gole do seu rum. Parecia bem calmo e relaxado e o sorriso já havia sumido de sua faceta.
- Waaa...
A ruiva espreguiçou-se. O dia tinha sido cheio, embora ela ainda não tivesse gastado toda a energia, sentia-se levemente cansada.
- Al-chan... dê-me instruções sobre nosso próximo curso.
- Devemos ficar mais alguns dias por essa cidade. Espere no mínimo três dias por aqui, capitã. – respondeu ele, coçando a lateral do rosto.
Apanhou o copo novamente e deu um gole, acabando com o mesmo. Apanhou a garrafa e colocou mais dentro de seu recipiente. Não sabia quanto tempo ficaria ali, mas de uma coisa sabia; não iria passar de uma semana.
- Aaah, tá. Então ainda posso ir ao mercado e comprar meu tamarindo. Porque sabe, certa pessoa roubou o meu. - falava do homem que a agrediu. Apesar da situação, ela parecia tão meiga como sempre foi. Foi quando teve uma idéia. - Ei, Al-chan... será que aqui tem suco de tamarindo?
- Acho que não tem suco de tamarindo.
- Droga!
Deixou que as palavras de Mina fossem as últimas. Ficou ali por um tempo, bebendo gole por gole da sua garrafa de rum. Logo, levantou-se de seu lugar, aproximando-se da ruiva. Com sua voz grave e um pouco rouca, pronunciou-se com a garrafa em mãos. Estava cansado, o dia tinha sido puxado, e mesmo o ambiente não fora o suficiente para animá-lo a ponto de fazê-lo perder o sono.
- Mina, estarei no navio.
Ajeitou o chapéu, sem esboçar sorrisos. Logo, começou a caminhar para a porta de saída do recinto.
- Já vai, Al-chan? Daijoubu, encontrarei você mais tarde.
Dito isso, aproximou-se do homem e o abraçou. Embora de poucas palavras, Alphonse era a pessoa em quem Mina mais confiava, e com mais se dava bem. Ele a protegia, mesmo à distância e em segredo, e estava sempre por perto. Baseado nisso, meiga, ela acenou em despedida.
- Ja ne, Al-chan. Cuidado na rua.
Este post é em homenagem a alguém muito, mas muito especial pra mim, o Guto. Ele vai entender o significado deste textinho. ♥
Marcadores:
Contos e Narrações
18 abril 2010
Chuva.

Lembro de sentir frio e fome. Estava chovendo. Estávamos todos debaixo do toldo daquela banca para nos abrigarmos, mas ainda assim eu sentia o ar gelado tocar e sacudir as minhas entranhas. O violão ajudava, não deixava a monotonia tomar conta do momento. Os garotos tocavam, animados, e eu apenas ouvia. Não que eu estivesse completamente alheia a tudo, até porque o frio fazia questão de lembrar que eu estava no meio da rua às três horas da manhã toda vez que uma brisinha soprava e me arrepiava. Ele tirou a camisa e correu pra debaixo da chuva, correndo por todo o parque. O porquê eu não sabia, mas quando voltou tomou minha mão e me puxou pra fora da proteção do toldo. As gotas de água, grossas e pesadas, em poucos segundos, encharcaram a minha roupa, que se colou ao meu corpo e me provocou ainda mais frio. Ele me puxou pra longe e não soltou a minha mão. Na verdade, ficou me encarando enquanto a apertava. Seus cabelos molhados quase cobriam os olhos, de modo que eu não consegui sequer imaginar o que se passava na cabeça dele. Ficou ali por quase um minuto, sem fazer ou dizer absolutamente nada, e eu desconcertada. O lado positivo? Eu não podia ficar mais molhada do que já estava. Meus dentes trincavam. Mas não precisei esperar muito mais que isso, já que ele interrompeu toda aquela tensão inclinando o rosto na minha direção e encostando suavemente seu nariz sobre o meu. Esfregou-o ali, parecia estar concentrado em sentir o meu cheiro. Em meio ao frio deserto, seus lábios mornos foram a minha chama. Ele girou o rosto para o lado, de modo a encaixar-se perfeitamente ao meu, e depositou a mão sobre a minha cintura. Meus olhos foram lentamente se fechando e eu senti o meu corpo ser tomado por uma sensação estranha, mais como uma ansiedade aliviada. Uma das minhas mãos correu seu peito nu e repousou em sua nuca, cravando as unhas suavemente sobre sua carne. Meus lábios entreabriram-se sutilmente, à medida que sua língua quente os adentrava sem cerimônias e brincava de entrelaçar com a minha. Senti sua mão apertar forte no meu quadril. Minha mão livre subiu pelas suas costas e também repousou ali, firme, enquanto eu puxava a sua carne com as unhas. A dele, por sua vez, chegou à minha nuca e puxou os meus cabelos para baixo com certa força, o que fez com que meu rosto se erguesse por conseqüência. A água da chuva sobre nosso cabelos e escorria por nossa face até chegar ao encontro dos nossos lábios, adentrando pelas frestas e participando da mistura quente que havia ali dentro. Minha mão que estava na nuca dele subiu até a metade de sua cabeça, quase sem cabelo, e puxei ali com as unhas também. Eu sabia exatamente o que o fazia perder o controle, embora eu achasse piamente que tudo aquilo só estava acontecendo justamente porque o controle dele tinha sido abalado. Quando nos separamos eu estava tremendo de frio, meus braços, minhas pernas, meus dentes. Ele não disse nada, apenas me tomou pela mão e voltou pra debaixo do toldo. Todos pareciam perplexos com a cena que acabaram de presenciar, talvez por sabiam o quanto ela relutava em acontecer. Ele remexeu na sua bolsa e apanhou uma camisa preta, estendendo na minha direção sem me olhar. Demorei a aceitar, argumentei que ele sentiria frio e que precisaria dela pra voltar pra casa. Ele nem me respondeu, apenas ergueu a peça e enfiou pela minha cabeça, ajudando-me a encaixar os braços nas laterais. O que será que estava acontecendo ali? Me puxou para sentarmos no chão e tomou ambas as minhas mãos entre as suas, esfregando-as uma contra a outra, e depois colocando-as em sua face. Estavam quentes, sim. Não é verdade que a chuva leva embora todas as frustrações?
Marcadores:
Contos e Narrações
21 janeiro 2010
Sonho.

O abajur despencou e o som do vidro da lâmpada se estraçalhando quebrou o silêncio constrangedor. Olhei para cima e vi os seus olhos, tão nítidos, procurando os meus. Eu estava encurralada, e era isso que mais me apavorava. O cheiro do medo impregnava o quarto e fazia tremer as minhas entranhas. A estante balançou quando ele prensou contra ela sua pesada mão, tão decidida quanto ele mesmo. Um livro desabou e alguns penduricalhos se chocaram e trincaram. Eu ainda não sabia como a situação havia chegado àquele ponto, mas era fato que nada a faria voltar no tempo. Ele parecia me indagar com o olhar, mas eu não sabia que resposta dar. Pousou as mãos na minha cintura e, suavemente, foi subindo-as até minhas costas. Estremeci, ali era meu ponto fraco. Sua mão, aberta, percorreu a minha pele e eu tive de fechar os olhos para não deixar nada transparecer. Logo chegou ao meu pescoço, depois na nuca, e foi lá que ele segurou os meus cabelos entre os dedos e puxou minha cabeça em sua direção. Foi nessa hora que eu entreabri os lábios e me entreguei.
Marcadores:
Contos e Narrações
02 outubro 2009
Memória falha.
Entrei naquela sala sem um pingo de vontade de estar ali. Aquela rotina de provas estava me matando, embora eu me concentrasse em manter na cabeça que eu só estava fazendo segunda chamada por ter faltado à prova e que isso poderia me ajudar muito. Mesmo limpo, eu sentia aquele uniforme pesar no meu corpo, grudar, talvez fosse o suor que
havia brotado dos meus poros durante minha viagem de ônibus. Muito desagradável, por sinal. Fiquei me perguntando quantas pessoas estariam na mesma situação que eu (não que isso me consolasse de alguma forma), uma vez que é bastante desconfortável fazer uma prova numa sala vazia. Entrei, coloquei minha bolsa sobre uma das carteiras e sentei para esperar. Coloquei o fone de ouvido e pus-me a ouvir música. Minutos depois, um garoto entrou. Imediatamente, eu tive a sensação de já tê-lo visto em algum lugar, embora não conseguisse me lembrar de onde. Acho que ele também teve a mesma sensação, já que me olhou profundamente nos olhos. Talvez fosse algum ex-namorado, ou um ficante, ou alguém que conheci em alguma saída em grupo com os meus amigos. Ele caminhou pela frente da sala e escolheu uma carteira duas filas depois da minha, e três lugares atrás. Ele largou as coisas sobre ela e também sentou, parecendo muito entediado (e provavelmente desejando estar em casa, assim como eu). Vez ou outra, eu o mirava com o canto dos olhos, e reparava que ele também o fazia. A sensação de estar em um local silencioso e sem qualquer perspectiva de conversa me deixava sufocada, pois se tem uma coisa que eu gosto de fazer, e o faço bem, é falar. Já estava ficando irritada por não me lembrar de onde conhecia o tal garoto. Com o tempo, as outras pessoas foram chegando. Era um número razoável de pessoas, até. Vi um conhecido e iniciei uma conversa, esquecendo-me completamente do garoto que sentava próximo a mim, três cadeiras antes. Quando terminei a prova, entreguei-a ao fiscal e saí. A noite estava estrelada.
havia brotado dos meus poros durante minha viagem de ônibus. Muito desagradável, por sinal. Fiquei me perguntando quantas pessoas estariam na mesma situação que eu (não que isso me consolasse de alguma forma), uma vez que é bastante desconfortável fazer uma prova numa sala vazia. Entrei, coloquei minha bolsa sobre uma das carteiras e sentei para esperar. Coloquei o fone de ouvido e pus-me a ouvir música. Minutos depois, um garoto entrou. Imediatamente, eu tive a sensação de já tê-lo visto em algum lugar, embora não conseguisse me lembrar de onde. Acho que ele também teve a mesma sensação, já que me olhou profundamente nos olhos. Talvez fosse algum ex-namorado, ou um ficante, ou alguém que conheci em alguma saída em grupo com os meus amigos. Ele caminhou pela frente da sala e escolheu uma carteira duas filas depois da minha, e três lugares atrás. Ele largou as coisas sobre ela e também sentou, parecendo muito entediado (e provavelmente desejando estar em casa, assim como eu). Vez ou outra, eu o mirava com o canto dos olhos, e reparava que ele também o fazia. A sensação de estar em um local silencioso e sem qualquer perspectiva de conversa me deixava sufocada, pois se tem uma coisa que eu gosto de fazer, e o faço bem, é falar. Já estava ficando irritada por não me lembrar de onde conhecia o tal garoto. Com o tempo, as outras pessoas foram chegando. Era um número razoável de pessoas, até. Vi um conhecido e iniciei uma conversa, esquecendo-me completamente do garoto que sentava próximo a mim, três cadeiras antes. Quando terminei a prova, entreguei-a ao fiscal e saí. A noite estava estrelada.
Marcadores:
Contos e Narrações
19 abril 2009
Apenas uma das portas.
Cansou. Não agüentava mais as birras infantis, aqueles biquinhos que ela fazia, e o fato de se chatear com coisas, a seu ver, insignificantes. Estava farto de suas ligações fora de hora só pra dizer o óbvio: que o amava. Aquele ciúme bobo e exagerado já estava passando dos limites, era impossível olhar para uma garota na rua sem ser repreendido por alguma ironia barata. Até o seu nome se tornou algo desagradável de ouvir, de tanto que ela o repetia só para que ele fosse mimá-la. Além disso, precisava de um tempo sozinho. Queria passar o dia inteiro deitado na cama, bebendo Coca Cola e jogando vídeo game com o irmão, mas que inferno, ela não deixava! Queria sair a qualquer custo, pra ficar fazendo a mesma pergunta de sempre. Porque ela quer saber o que acontece no meu dia? É quase sempre a mesma coisa, pensava. Terminou. Foi difícil, ela começou a chorar e perguntar as razões daquilo, mas não havia nada mais para ser explicado. Não estava totalmente feliz, mas era o melhor. Era nisso que queria acreditar. Foi nisso que encontrou um consolo nos dias que se seguiram. O tempo passou, mais precisamente cinco meses. O clima não estava tão frio como no início do ano, era raro sentir qualquer mera gotícula de chuva despencar do céu. Tornou a se relacionar, desta vez com uma morena. Não tinham nada sério,
mas tudo corria bem. Decidiu levá-la ao shopping, pois havia combinado de encontrar alguns amigos. Ao chegar à área de fliperamas e ao deixá-la livre para que pudesse cumprimentar os demais, uma imagem lhe veio à mente. Os fios escarlates erguidos e presos no alto da cabeça, a camiseta regata, bege da mesma cor do short, e alguns movimentos rápidos e sincronizados. Aquela máquina de dança na parte interna nunca parecera tão vazia. A menina pediu que ele a acompanhasse até a livraria. Assim que entrou, um aroma de limão impregnou as suas narinas. Um homem, na cafeteria ao fundo, saboreava um pedaço de torta acompanhado de um capuccino. E mais uma vez, tornou a relembrar. Relembrou os momentos em que roçou seu nariz na pele dela e sentiu aquele cheiro cítrico, forte, e de como o tempo passava só para vê-la soprar o café durante quase dez minutos. Queria sair dali, aquelas imagens estavam deixando-o tonto. Assim que pôs os pés para fora da loja, um grito cortou o ar. “Susu!”. Como num reflexo, ele se virou e esperou que algum corpo despencasse sobre o seu, mas nada aconteceu. Ninguém apareceu. Quando se deu conta, uma outra morena havia corrido até um garoto loiro, provavelmente seu compromisso, e o abraçado fortemente, antes de selinhar os seus lábios. Não podia estar acontecendo. E quando sua acompanhante percebeu que alguma coisa o aflingia, tentou se comunicar. “Oi, tudo bem?”. Não, só podia ser uma brincadeira muito mal gosto. De muito mal gosto. No dia seguinte, resolveu visitá-la. A mãe da garota já o conhecia, tanto que pediu que entrasse e tentou lhe oferecer algo para beber, apesar de achar estranha a presença do moreno ali. Quando ele mencionou o nome, a expressão da mulher, que antes era prestativa e alegre, transformou-se numa careta de dor e agonia. No mesmo dia, à tarde, chegou ao hospital. O quarto era bonito, cuidadosamente decorado em vermelho e branco. Parecia feito especialmente para ela. E lá estava, deitada sobre a cama, cheia de fios e tubos. Seus olhos, antes tão verdes e vivos, encontravam-se adormecidos tão profundamente que ele temeu que nunca mais se abrissem. Mas, no momento, seguinte, despertou. Eles, que já estavam virados para a porta, não precisaram focar muito a imagem, apenas esperar que ela voltasse ao normal, nítida. Seus lábios, que agora não estavam mais tão vermelhos, modelaram-se em um sorriso pouco flexível, mas sinceramente feliz. Podia sentir.
- Eu sabia que você viria. – Estendeu a mão, para que ele a segurasse firme, para que nunca mais deixasse o lugar de onde não deveria ter saído. Do lado dela.
mas tudo corria bem. Decidiu levá-la ao shopping, pois havia combinado de encontrar alguns amigos. Ao chegar à área de fliperamas e ao deixá-la livre para que pudesse cumprimentar os demais, uma imagem lhe veio à mente. Os fios escarlates erguidos e presos no alto da cabeça, a camiseta regata, bege da mesma cor do short, e alguns movimentos rápidos e sincronizados. Aquela máquina de dança na parte interna nunca parecera tão vazia. A menina pediu que ele a acompanhasse até a livraria. Assim que entrou, um aroma de limão impregnou as suas narinas. Um homem, na cafeteria ao fundo, saboreava um pedaço de torta acompanhado de um capuccino. E mais uma vez, tornou a relembrar. Relembrou os momentos em que roçou seu nariz na pele dela e sentiu aquele cheiro cítrico, forte, e de como o tempo passava só para vê-la soprar o café durante quase dez minutos. Queria sair dali, aquelas imagens estavam deixando-o tonto. Assim que pôs os pés para fora da loja, um grito cortou o ar. “Susu!”. Como num reflexo, ele se virou e esperou que algum corpo despencasse sobre o seu, mas nada aconteceu. Ninguém apareceu. Quando se deu conta, uma outra morena havia corrido até um garoto loiro, provavelmente seu compromisso, e o abraçado fortemente, antes de selinhar os seus lábios. Não podia estar acontecendo. E quando sua acompanhante percebeu que alguma coisa o aflingia, tentou se comunicar. “Oi, tudo bem?”. Não, só podia ser uma brincadeira muito mal gosto. De muito mal gosto. No dia seguinte, resolveu visitá-la. A mãe da garota já o conhecia, tanto que pediu que entrasse e tentou lhe oferecer algo para beber, apesar de achar estranha a presença do moreno ali. Quando ele mencionou o nome, a expressão da mulher, que antes era prestativa e alegre, transformou-se numa careta de dor e agonia. No mesmo dia, à tarde, chegou ao hospital. O quarto era bonito, cuidadosamente decorado em vermelho e branco. Parecia feito especialmente para ela. E lá estava, deitada sobre a cama, cheia de fios e tubos. Seus olhos, antes tão verdes e vivos, encontravam-se adormecidos tão profundamente que ele temeu que nunca mais se abrissem. Mas, no momento, seguinte, despertou. Eles, que já estavam virados para a porta, não precisaram focar muito a imagem, apenas esperar que ela voltasse ao normal, nítida. Seus lábios, que agora não estavam mais tão vermelhos, modelaram-se em um sorriso pouco flexível, mas sinceramente feliz. Podia sentir.- Eu sabia que você viria. – Estendeu a mão, para que ele a segurasse firme, para que nunca mais deixasse o lugar de onde não deveria ter saído. Do lado dela.
Marcadores:
Contos e Narrações
03 abril 2009
Maldita ligação.
- Alô?- Oi!
- Ah, não! Você de novo? Que parte do "estou ocupada" você não entendeu?
- Achei que você já havia admitido que não estava fazendo nada realmente importante.
- Mas estou!
- Ah, é? Como o quê, por exemplo?
- Aaaa... estou varrendo a casa.
- Claro, e eu vou protagonizar "Priscila, a rainha do deserto". A última coisa que você faria na vida é varrer a casa, principalmente a SUA casa.
- Porquê? Está insinuando que não sou uma pessoa prestativa?
- É, mais ou menos.
- E que moral você tem pra falar disso, senhor sou-sincero-mesmo-que-magoe?
- Sinceridade é a base pra uma sociedade se tornar harmoniosa e bom para se viver.
- Ah, claro, o último pastor que te abordou pra discutir sobre religião que o diga. Nunca vi conversa mais harmoniosa.
- Eu não disse nada demais, apenas que uma pessoa que segue regrinhas e que baseia sua vida num livro é, no mínimo, imbecil. Não tenho culpa se ele não aprendeu a enfrentar os obstáculos da vida. Mas não mude de assunto, me diga o que está fazendo de verdade.
- Já disse, estou varrendo a casa. Porque não aceita o fato de que a sua esperteza e sarcasmo não foram suficientes dessa vez?
- Porque se você estivesse realmente fazendo isso, a) não estaria aqui conversando comigo e b) estaria tão cansada por tamanho esforço físico que estaria deitada lendo sobre o Big Brother em alguma revista de fofoca.
- Não assisto Big Brother, se quer saber. E agora irei desligar, tenho mais o que fazer que ficar de papo no telefone.
- Tudo bem, tudo bem. Antes, posso fazer só mais uma pergunta?
- Tá, vai.
- O que você está vestindo?
- tu, tu, tu.
Marcadores:
Contos e Narrações
27 fevereiro 2009
Vê.
- [...] E alho?
- Alho? A não ser o cheiro um pouco irritante, nada muito extraordinário em dentes de alho.
- E os crucifixos?
- O que há de errado com Deus?!
- Eu só... achei que vocês tivessem algum tipo de aversão.
- Não, claro que não. É tão verdade quanto o mito de que não somos visíveis em espelhos. Puros boatos. Nós mesmos os inventamos para fugir da perseguição na era vitoriana. Se pensassem que não tínhamos reflexo, por exemplo, nos livrávamos da fogueira e da guilhotina. Muitos de nós são católicos, não tiveram escolha.
- Mas vocês bebem sangue, não é? Precisam de sangue...
- Sim, assim como vocês precisam de água. Não somos animais, como a maioria de vocês pensa. Quando preciso, tomamos em copos, mas quando não dá, então...
- ...Vocês caçam?
- Exato. Claro, não sou nenhum ninfomaníaco sangüíneo, não tenho sede constante e não caço qualquer um.
- E quais são suas vítimas, no geral?
- Criminosos, corruptos... Eles me cedem o sangue e eu livro a sociedade de maus elementos, unindo o útil ao agradável. Conveniente, não?
- Mas... esse pensamento é comum entre vocês?
- Não, nem todos pensam assim. Alguns preferem a emoção da caçada sem regras, não gostam de se submeter a uma “boa conduta”. Afinal, fisicamente, somos mais fortes, não é? Se quiséssemos fazer algo, nada nos impediria.
- O que te levou a pensar tão... diferente?
- Na verdade, não sou o que sou por opção. Dessa forma, apesar das centenas de anos em que já estou nessa condição, nunca me desapeguei da minha antiga vida. Perdi boa parte da minha sensibilidade, mas todas as minhas memórias continuam aqui. Não sinto mais calafrios, por exemplo, ao matar. Creio que são elas que ainda me mantém “controlado”.
- E quando não caça, como consegue sangue?
- Libert é quem me fornece de dentro do necrotério. Ele sempre tem um estoque de “O” negativo para mim, por um preço bem acessível.
- Aa, entendi. E vocês... dormem em caixões?
- Oh, sim! Os caixões da Romênia são bastante confortáveis. A madeira é da melhor qualidade e a parte interna é feita do veludo mais pomposo e cheiroso. Mas não dormimos sempre nos caixões, na verdade, qualquer lugar escuro serve. Nossa pele não tem a mesma sensibilidade de antes, então, não faz tanta diferença dormimos no caixão ou debaixo da terra. Aliás, a terra do cemitério é bem quente e fofa.
- É comum encontrá-los por aí? Digo, na rua, cargos diversos...
- Claro! Somos tão diferentes assim fisicamente? A maioria opta por cargos diplomáticos, uma vez que possuímos idade para ter mais conhecimento que você, sua mãe e sua avó juntas. Um outro grupo está presente nos vários ramos das artes, como pintura e filosofia. Outros, ainda, os mais ambiciosos, se dedicam à economia. Lembro-me perfeitamente de quando Joseph me disse que, no mundo de hoje, você tinha que ter, pelo menos, uma empresa e um prédio particular de quinze andares, hahaha.
- Nossa! Posso então estar conversando com um sem saber? Sempre pensei que vocês eram mais cautelosos.
- E somos! A maioria, pelo menos. Quando Luiz XVI gerou suas primeiras crianças...
- Espere! Luiz XVI era um de vocês? O da França? Não posso acreditar...
- Mas é verdade! Porque você acha que ele perdeu a cabeça? Por ser um mal governante é que não foi. Joseph me descreveu perfeitamente como era naquela época, as penas que eram aplicadas a quem era descoberto. Muitos de nós foram queimados, degolados e enforcados e, apesar de governar a França, Luiz não poderia fazer nada para nos proteger se todos os franceses soubessem a verdade. Foi quando os boatos começaram. Passamos a ser invisíveis em espelhos e fotografias, tementes a alho e crucifixos e incapazes de permanecermos controlados ao perceber o mínimo indício de sangue. Alguns foram descobertos, pegos desprevenidos, mas a maioria permaneceu intacta. Um dos fatos mais curiosos foi a descoberta de Luiz. Me parece que uma de suas irmãs e o flagrou “atacando” um dos criados durante a noite, e gritou tão alto que acordou todo o castelo. O caso foi abafado por conta dos problemas com os jacobinos e a corte aproveitou a situação para se livrar do infeliz, decapitando-o. O resto teve de mudar de país, dispersando-se pelo mundo.
- Isso é... inacreditável! Como conseguiram conter a repercussão disso? Afinal, Luiz XVI foi um marco importante da história...
- Aa, foi fácil! Digamos que sua irmã era bastante desastrada com lâminas. Mas deixe-me continuar. Quando Luiz XVI começou a formar a sua primeira geração, apesar de estarmos maravilhados, ele fora bastante cauteloso, pelo menos nos primeiros anos. Mas gerou uma certa desconfiança, claro, alguns rapazes de repente passarem a morar em aposentos do castelo. Luiz, em seu deleite pelo sexo masculino, não queria abrir mão das “fugas” de seu casamento, mas não queria ser descoberto, até porque isso não seria um ponto a favor no seu reinado. Dessa forma, comprou um generoso lote de terra no sul e construiu uma residência grande e imponente, com traços evidentemente nobres e o interior ainda mais luxuoso que a parte da frente. Os móveis eram importados dos melhores mercados e Luiz abusou ao ostentar a morada dos filhos com todos os requintes dos quais um ser poderia experimentar. Nada lhes faltou, e foi desse modo que se inseriram, pouco a pouco, no meio nobre de Luiz. Joseph era um deles. No princípio, tudo parecia caminhar bem, mas o nosso querido Luiz acabou tendo aquele pequeno deslize e quase comprometeu a existência de todos, que já havia crescido em número consideravelmente. Mas é aí que entra a cautela! Ele conseguiu isolar a casa, construída num local estratégico, do resto da França, mantendo-a em pleno segredo, além de ter escolhido um local bem estratégico para ela.
- E como ele conseguiu isso? Quer dizer, ele estava morto...
- Luiz era bastante organizado e precavido. Antes mesmo de ser descoberto, garantiu a segurança dos outros passando a casa para o nome de Joseph, o primogênito, e, acredito eu, lhe repassou informações secretas. Entretanto, essas teorias de minha cabeça não posso lhes revelar.
- Tudo bem, tudo bem. Mas diga-me: Se vocês não morrem, porque Luiz morreu?
- Onde você ouviu essa asneira?! É claro que nós morremos. Só não das formas convencionais e nem com a mesma facilidade, mas morremos sim. Há locais específicos e vitais, que não são os mesmos que os seus, claro, que, se atingidos, causam um grande estrago. E foram eles que fizeram Luiz padecer.
- E quais são eles?
- Ora, não subestime a minha inteligência! Não por mim, mas pela preservação dos outros, não estou autorizado a falar.
- Tudo bem, não irei insistir. Mas e Joseph? Você falou tanto dele, mas não me explicou quem ele é e que relação você tem com ele.
- Joseph é meu mestre. Apesar de, tecnicamente, ser meu “pai”, o tenho como um irmão. No começo, não nos dávamos muito bem. “Não são compatíveis”, era o que diziam. Joseph gostava de porcelana chinesa, restaurantes caros e apartamentos luxuosos. Há algum tempo, se visitasse seu apartamento a qualquer dia e hora, encontraria mulheres loiras, morenas e ruivas perambulando pela casa, semi nuas e suadas, guardando em suas bolsas surradas objetos valiosos presentes ali. Eu, na época, prezava a filosofia, a pintura, a arquitetura. Você deve estar se perguntando como fizemos para consertar a nossa relação...
- Eu estava prestes a perguntar!
- Pois estão. Na verdade, nada fizemos, o tempo se encarregou de dar lugar às coisas. Ambos mudamos. Joseph recebeu uma pitada minha e eu uma dele. Dessa forma, ao longo dos anos, nos acostumamos um com o outro. Joseph é o mais velho que conheço. Apesar de sua personalidade voltada para o mundano, me ensinou (ou me instigou a procurar)tudo o que sei. As deixe-me acrescentar algo... Aposto minha vida (ou a não-vida, no caso) que posso adivinhar a pergunta que quer me fazer desde o início desta sessão.
- Pergunta? Pois bem, qual seria ela?
- Você está se perguntando por qual motivo eu estou aqui, relatando a minha vida e revelando meus segredos para uma pessoa que conheço há apenas algumas horas.
- A, claro, vocês naturalmente lêem mentes também... Vamos lá, em que número estou pensando?
- Neste caso não foi preciso. Mas se quer realmente saber, não lemos mente. A diferença entre mim e você é que consigo perceber alguns detalhes que normalmente passam despercebidos. Isso se chama Baixa Inibição Latente, e não adivinhação. Mas voltando ao assunto, acertei a pergunta?
- Acertou. O que tem a dizer agora?
- Na verdade, o motivo pelo qual estou lhe contando tudo isso é porque me sentia sufocado. Há anos “vivo” desta maneira.
- Mas sou repórter, poderia facilmente ficar rica às custas de sua exposição, se quisesse.
- Não irá.
- Tem assim tanta certeza de tudo?
No dia seguinte, um corpo fora encontrado próximo à Augustin Street, no interior de uma velha parede de um beco. A polícia, ao ser informada do crime por um morador local, não soube explicar o ocorrido. Extremamente lesionado, o corpo foi analisado pelo necrotério de Londres, que atestou a causa da morte como incompatibilidade sanguínea. A estranha ausência de 80% do sangue da vítima também foi mencionada no relatório. O que mais intrigou as autoridades foi a possibilidade, seguindo a lógica, de que o assassino possa ter conhecimento do tipo sanguíneo do atual defunto, uma vez que o crime foi classificado como assassinato. O único indício encontrado no local fora um pedaço de papel fechado firmemente sob a mão da vítima, onde havia um enorme “V” escrito tortamente. “Provavelmente, estava tentando escrever o nome do assassino, mas foi interrompido”, alegou um dos presentes. As atrocidades cometidas ali ainda não são totalmente conhecidas.
- Alho? A não ser o cheiro um pouco irritante, nada muito extraordinário em dentes de alho.
- E os crucifixos?
- O que há de errado com Deus?!
- Eu só... achei que vocês tivessem algum tipo de aversão.
- Não, claro que não. É tão verdade quanto o mito de que não somos visíveis em espelhos. Puros boatos. Nós mesmos os inventamos para fugir da perseguição na era vitoriana. Se pensassem que não tínhamos reflexo, por exemplo, nos livrávamos da fogueira e da guilhotina. Muitos de nós são católicos, não tiveram escolha.
- Mas vocês bebem sangue, não é? Precisam de sangue...
- Sim, assim como vocês precisam de água. Não somos animais, como a maioria de vocês pensa. Quando preciso, tomamos em copos, mas quando não dá, então...
- ...Vocês caçam?- Exato. Claro, não sou nenhum ninfomaníaco sangüíneo, não tenho sede constante e não caço qualquer um.
- E quais são suas vítimas, no geral?
- Criminosos, corruptos... Eles me cedem o sangue e eu livro a sociedade de maus elementos, unindo o útil ao agradável. Conveniente, não?
- Mas... esse pensamento é comum entre vocês?
- Não, nem todos pensam assim. Alguns preferem a emoção da caçada sem regras, não gostam de se submeter a uma “boa conduta”. Afinal, fisicamente, somos mais fortes, não é? Se quiséssemos fazer algo, nada nos impediria.
- O que te levou a pensar tão... diferente?
- Na verdade, não sou o que sou por opção. Dessa forma, apesar das centenas de anos em que já estou nessa condição, nunca me desapeguei da minha antiga vida. Perdi boa parte da minha sensibilidade, mas todas as minhas memórias continuam aqui. Não sinto mais calafrios, por exemplo, ao matar. Creio que são elas que ainda me mantém “controlado”.
- E quando não caça, como consegue sangue?
- Libert é quem me fornece de dentro do necrotério. Ele sempre tem um estoque de “O” negativo para mim, por um preço bem acessível.
- Aa, entendi. E vocês... dormem em caixões?
- Oh, sim! Os caixões da Romênia são bastante confortáveis. A madeira é da melhor qualidade e a parte interna é feita do veludo mais pomposo e cheiroso. Mas não dormimos sempre nos caixões, na verdade, qualquer lugar escuro serve. Nossa pele não tem a mesma sensibilidade de antes, então, não faz tanta diferença dormimos no caixão ou debaixo da terra. Aliás, a terra do cemitério é bem quente e fofa.
- É comum encontrá-los por aí? Digo, na rua, cargos diversos...
- Claro! Somos tão diferentes assim fisicamente? A maioria opta por cargos diplomáticos, uma vez que possuímos idade para ter mais conhecimento que você, sua mãe e sua avó juntas. Um outro grupo está presente nos vários ramos das artes, como pintura e filosofia. Outros, ainda, os mais ambiciosos, se dedicam à economia. Lembro-me perfeitamente de quando Joseph me disse que, no mundo de hoje, você tinha que ter, pelo menos, uma empresa e um prédio particular de quinze andares, hahaha.
- Nossa! Posso então estar conversando com um sem saber? Sempre pensei que vocês eram mais cautelosos.
- E somos! A maioria, pelo menos. Quando Luiz XVI gerou suas primeiras crianças...
- Espere! Luiz XVI era um de vocês? O da França? Não posso acreditar...
- Mas é verdade! Porque você acha que ele perdeu a cabeça? Por ser um mal governante é que não foi. Joseph me descreveu perfeitamente como era naquela época, as penas que eram aplicadas a quem era descoberto. Muitos de nós foram queimados, degolados e enforcados e, apesar de governar a França, Luiz não poderia fazer nada para nos proteger se todos os franceses soubessem a verdade. Foi quando os boatos começaram. Passamos a ser invisíveis em espelhos e fotografias, tementes a alho e crucifixos e incapazes de permanecermos controlados ao perceber o mínimo indício de sangue. Alguns foram descobertos, pegos desprevenidos, mas a maioria permaneceu intacta. Um dos fatos mais curiosos foi a descoberta de Luiz. Me parece que uma de suas irmãs e o flagrou “atacando” um dos criados durante a noite, e gritou tão alto que acordou todo o castelo. O caso foi abafado por conta dos problemas com os jacobinos e a corte aproveitou a situação para se livrar do infeliz, decapitando-o. O resto teve de mudar de país, dispersando-se pelo mundo.
- Isso é... inacreditável! Como conseguiram conter a repercussão disso? Afinal, Luiz XVI foi um marco importante da história...
- Aa, foi fácil! Digamos que sua irmã era bastante desastrada com lâminas. Mas deixe-me continuar. Quando Luiz XVI começou a formar a sua primeira geração, apesar de estarmos maravilhados, ele fora bastante cauteloso, pelo menos nos primeiros anos. Mas gerou uma certa desconfiança, claro, alguns rapazes de repente passarem a morar em aposentos do castelo. Luiz, em seu deleite pelo sexo masculino, não queria abrir mão das “fugas” de seu casamento, mas não queria ser descoberto, até porque isso não seria um ponto a favor no seu reinado. Dessa forma, comprou um generoso lote de terra no sul e construiu uma residência grande e imponente, com traços evidentemente nobres e o interior ainda mais luxuoso que a parte da frente. Os móveis eram importados dos melhores mercados e Luiz abusou ao ostentar a morada dos filhos com todos os requintes dos quais um ser poderia experimentar. Nada lhes faltou, e foi desse modo que se inseriram, pouco a pouco, no meio nobre de Luiz. Joseph era um deles. No princípio, tudo parecia caminhar bem, mas o nosso querido Luiz acabou tendo aquele pequeno deslize e quase comprometeu a existência de todos, que já havia crescido em número consideravelmente. Mas é aí que entra a cautela! Ele conseguiu isolar a casa, construída num local estratégico, do resto da França, mantendo-a em pleno segredo, além de ter escolhido um local bem estratégico para ela.
- E como ele conseguiu isso? Quer dizer, ele estava morto...
- Luiz era bastante organizado e precavido. Antes mesmo de ser descoberto, garantiu a segurança dos outros passando a casa para o nome de Joseph, o primogênito, e, acredito eu, lhe repassou informações secretas. Entretanto, essas teorias de minha cabeça não posso lhes revelar.
- Tudo bem, tudo bem. Mas diga-me: Se vocês não morrem, porque Luiz morreu?
- Onde você ouviu essa asneira?! É claro que nós morremos. Só não das formas convencionais e nem com a mesma facilidade, mas morremos sim. Há locais específicos e vitais, que não são os mesmos que os seus, claro, que, se atingidos, causam um grande estrago. E foram eles que fizeram Luiz padecer.
- E quais são eles?
- Ora, não subestime a minha inteligência! Não por mim, mas pela preservação dos outros, não estou autorizado a falar.
- Tudo bem, não irei insistir. Mas e Joseph? Você falou tanto dele, mas não me explicou quem ele é e que relação você tem com ele.
- Joseph é meu mestre. Apesar de, tecnicamente, ser meu “pai”, o tenho como um irmão. No começo, não nos dávamos muito bem. “Não são compatíveis”, era o que diziam. Joseph gostava de porcelana chinesa, restaurantes caros e apartamentos luxuosos. Há algum tempo, se visitasse seu apartamento a qualquer dia e hora, encontraria mulheres loiras, morenas e ruivas perambulando pela casa, semi nuas e suadas, guardando em suas bolsas surradas objetos valiosos presentes ali. Eu, na época, prezava a filosofia, a pintura, a arquitetura. Você deve estar se perguntando como fizemos para consertar a nossa relação...
- Eu estava prestes a perguntar!
- Pois estão. Na verdade, nada fizemos, o tempo se encarregou de dar lugar às coisas. Ambos mudamos. Joseph recebeu uma pitada minha e eu uma dele. Dessa forma, ao longo dos anos, nos acostumamos um com o outro. Joseph é o mais velho que conheço. Apesar de sua personalidade voltada para o mundano, me ensinou (ou me instigou a procurar)tudo o que sei. As deixe-me acrescentar algo... Aposto minha vida (ou a não-vida, no caso) que posso adivinhar a pergunta que quer me fazer desde o início desta sessão.
- Pergunta? Pois bem, qual seria ela?
- Você está se perguntando por qual motivo eu estou aqui, relatando a minha vida e revelando meus segredos para uma pessoa que conheço há apenas algumas horas.
- A, claro, vocês naturalmente lêem mentes também... Vamos lá, em que número estou pensando?
- Neste caso não foi preciso. Mas se quer realmente saber, não lemos mente. A diferença entre mim e você é que consigo perceber alguns detalhes que normalmente passam despercebidos. Isso se chama Baixa Inibição Latente, e não adivinhação. Mas voltando ao assunto, acertei a pergunta?
- Acertou. O que tem a dizer agora?
- Na verdade, o motivo pelo qual estou lhe contando tudo isso é porque me sentia sufocado. Há anos “vivo” desta maneira.
- Mas sou repórter, poderia facilmente ficar rica às custas de sua exposição, se quisesse.
- Não irá.
- Tem assim tanta certeza de tudo?
No dia seguinte, um corpo fora encontrado próximo à Augustin Street, no interior de uma velha parede de um beco. A polícia, ao ser informada do crime por um morador local, não soube explicar o ocorrido. Extremamente lesionado, o corpo foi analisado pelo necrotério de Londres, que atestou a causa da morte como incompatibilidade sanguínea. A estranha ausência de 80% do sangue da vítima também foi mencionada no relatório. O que mais intrigou as autoridades foi a possibilidade, seguindo a lógica, de que o assassino possa ter conhecimento do tipo sanguíneo do atual defunto, uma vez que o crime foi classificado como assassinato. O único indício encontrado no local fora um pedaço de papel fechado firmemente sob a mão da vítima, onde havia um enorme “V” escrito tortamente. “Provavelmente, estava tentando escrever o nome do assassino, mas foi interrompido”, alegou um dos presentes. As atrocidades cometidas ali ainda não são totalmente conhecidas.
Marcadores:
Contos e Narrações
20 agosto 2008
O que os anos não trarão mais.
Mais cedo, havia ido com a mãe ao médico do outro lado da cidade. Fazia tempo que as duas não ficavam sozinhas, embora não trocassem uma palavra sequer quando isso acontecia. Haviam se distanciado fazia quase um mês, a mãe sempre ocupada com os seus problemas de adulto, e a filha mal humorada e melancólica por problemas com o namorado. Esperaram um pouco até serem atendidas pela médica, Dr. Adriana para ser mais específica, que lhes disse que a garota estava muito abaixo do peso e precisaria fazer alguns exames para confirmar ou não uma suspeita sobre algo mais grave no estômago. Depois que saíram e as duas entraram no carro, a mãe recebeu uma ligação do irmão, avisando que o quadro de seu pai na UTI havia piorado e que haviam problemas no plano para cobrir os gastos. Aquilo foi o bastante para deixá-la alterada. Gritou com a mulher que passava com o carro atrás dela, xingando-a com vocábulos de muito baixo calão e buzinando freneticamente para que ela saísse de seu caminho. Ainda assim, não pôde agilizar nada, pois a rua estava completamente engarrafada. Depois de quase uma hora de espera e de muito nervosismo, conseguiu chegar à avenida que dava acesso a sua residência. Pediu a filha que comprasse algo para comer e fosse para casa, frizando que era muito importante que ela o fizesse, principalmente depois do que a médica havia dito. A garota concordou e despediu-se, entrando no shopping.
Não precisou esperar muito, pois a fila andava rápido. Comprou uma massa e um refrigerante e voltou para casa, bem ao lado. Encontrou com as amigas, mas reparou algo de diferente: O grupo todo estava reunido, em uma oportunidade única. Amigas de infância, que se separaram graças às peças da vida, e agora graças a talvez a essas peças, estavam novamente juntas. Receberam a ruiva com um abraço apertado, e começaram a contar as novidades. Uma delas, a morena, falava sobre o término de seu namoro de um ano há um dia atrás, e de como isso a estava afetando, na verdade quase nada. A ruiva aproveitou para comentar que também estava passando por uma situação do tipo, uma separação, enquanto sentava e começava a comer, pois sabia que aquela conversa iria longe. Minutos depois, a empregada de seu apartamento grita da janela dizendo que sua mãe mandara que ela subisse, e em resposta, um "Diga a ela que eu já subo" foi o bastante. Isso repetiu-se por mais três vezes, até que a garota enraiveceu-se e mandou um "diga que eu morri", mas logo se corrigiu e frizou mais uma vez que logo subiria para casa. Após mais alguns minutos, a empregada aparecia à sua frente com o celular na mão, e ao pegá-lo, ouviu berros desperados da mãe, xingando-a e ameaçando que quando chegasse, iriam ter uma conversa muito séria. Subiu, sem mais cerimônias, e terminou sua refeição sentada no seu quarto. Algumas horas depois, a mãe chegou em casa e logo adentrou o quarto da filha, onde a mesma se encontrava rabiscando qualquer coisa em um pedaço de papel. Não hesitou em atacá-la com palavras grosseiras e xingamentos, tão logo começara a chorar. Alegou que havia pedido uma coisa e ela não havia feito, sobre os protestos da menina de que não a desobedecera. Depois, revelou o verdadeiro motivo de sua angústia: A frase que ela mandara dizer em seu momento de nervosismo. Discutiram durante horas, cada uma botando na mesa os seus motivos, as razões, os sentimentos. Houve um momento no qual a ruiva alegou que a mãe não a conhecia, e que apesar de sempre ser indagada por ela sobre sua vida, ela não nunca sabia como fazê-lo de modo que ela exprimisse confiante.
- Não é apenas perguntar e dizer "eu tentei". Sou orgulhosa, muitas vezes grosseira, mal humorada, mas porque ninguém me ensinou a ser de outro jeito. Sou fechada e reservada, gosto de resolver os meus problemas por mim mesma e quando estou numa situação assim, não gosto de ser incomodada, quero ficar sozinha pra refletir. Isso tudo, porque ninguém me ensinou a ser de outro jeito. Ninguém me ensinou como chegar e conversar, me abrir. Ninguém teve paciência pra me explicar, mesmo que demorasse um pouco e eu falhasse as vezes, a maneira certa de fazer as coisas.
- Você sabe o que é ter uma pessoa querida presa numa cama, à beira da morte, sem poder fazer nada?
- Sei. E essa pessoa estava tão longe, que eu não pude dar o apoio que eu desejava, o ombro amigo que ela precisava, o carinho que VOCÊ pode dar.
- Ah, é? E o aconteceu com ela?
- Ela morreu.
Após esse comentário, o baque caiu sobre a cabeça da mãe. Ela sentou na cama e suspirou. Começou a dizer que tinha errado muito, e que estava decepcionada por não saber de coisas desse tipo, de não ser para a filha uma amiga fiel.
- Não foi, nunca foi capaz de parar de olhar para os seus problemas de adulto e tentar entender os meus problemas de criança. Mas...não é tarde.
A partir daquele momento, ambas se abriram, a filha devagar, sem pressa, aos poucos. Revelou que apesar de não parecer dentro de casa, estava muito preocupada com o avô, embora houvesse se distanciado dele por pesares do destino, que estava infeliz quanto aos amigos e desiludida quanto ao amor. A mãe falou de sua infância, que já teve vários namorados, que já gostou de muitas pessoas, pessoas estas que ela nunca esqueceu, mas que acima de tudo temos que saber perder.
- Se o seu coração está doendo, se ele está despedaçado, se a pessoa que você ama não tem coragem para se jogar de cabeça como você e se sente vontade de chorar, não hesite em fazê-lo. Se permita chorar. Diga para si mesma "Estou com dor de cotovelo, e vou ficar o dia inteiro em casa chorando até me cansar, até essa dor passar", dor essa que pode levar um dia, uma semana, um ano, uma vida. E não se culpe por ser orgulhosa e grosseira, acho que discutimos tanto porque somos muito parecidas, eu era igualzinha a você quando tinha a sua idade. Todo ser humano erra, não se cobre tanto. Se as pessoas não são capazes de te perdoar, é porque elas não te amam verdadeiramente. Amor sempre perdoa, porque amor é amor.
E foi ali que jaziram todas as lágrimas da menina. Chorou nos braços da mãe até mal conseguir falar de tanto soluçar, até não haverem mais lágrimas para serem postas pra fora. E vice-versa, também pediu que a mãe se abrisse, que contasse como estava se sentindo. Depois de se sentir tão sozinha durante tanto tempo, finalmente percebeu que a sua melhor amiga estava bem debaixo do seu nariz, e foi burra o bastante para não notar. Foi uma noite surreal, pois ali guardavam-se momentos raros, momentos que serão lembrados pela vida toda.
- Não é apenas perguntar e dizer "eu tentei". Sou orgulhosa, muitas vezes grosseira, mal humorada, mas porque ninguém me ensinou a ser de outro jeito. Sou fechada e reservada, gosto de resolver os meus problemas por mim mesma e quando estou numa situação assim, não gosto de ser incomodada, quero ficar sozinha pra refletir. Isso tudo, porque ninguém me ensinou a ser de outro jeito. Ninguém me ensinou como chegar e conversar, me abrir. Ninguém teve paciência pra me explicar, mesmo que demorasse um pouco e eu falhasse as vezes, a maneira certa de fazer as coisas.
- Você sabe o que é ter uma pessoa querida presa numa cama, à beira da morte, sem poder fazer nada?
- Sei. E essa pessoa estava tão longe, que eu não pude dar o apoio que eu desejava, o ombro amigo que ela precisava, o carinho que VOCÊ pode dar.
- Ah, é? E o aconteceu com ela?
- Ela morreu.
Após esse comentário, o baque caiu sobre a cabeça da mãe. Ela sentou na cama e suspirou. Começou a dizer que tinha errado muito, e que estava decepcionada por não saber de coisas desse tipo, de não ser para a filha uma amiga fiel.
- Não foi, nunca foi capaz de parar de olhar para os seus problemas de adulto e tentar entender os meus problemas de criança. Mas...não é tarde.
A partir daquele momento, ambas se abriram, a filha devagar, sem pressa, aos poucos. Revelou que apesar de não parecer dentro de casa, estava muito preocupada com o avô, embora houvesse se distanciado dele por pesares do destino, que estava infeliz quanto aos amigos e desiludida quanto ao amor. A mãe falou de sua infância, que já teve vários namorados, que já gostou de muitas pessoas, pessoas estas que ela nunca esqueceu, mas que acima de tudo temos que saber perder.
- Se o seu coração está doendo, se ele está despedaçado, se a pessoa que você ama não tem coragem para se jogar de cabeça como você e se sente vontade de chorar, não hesite em fazê-lo. Se permita chorar. Diga para si mesma "Estou com dor de cotovelo, e vou ficar o dia inteiro em casa chorando até me cansar, até essa dor passar", dor essa que pode levar um dia, uma semana, um ano, uma vida. E não se culpe por ser orgulhosa e grosseira, acho que discutimos tanto porque somos muito parecidas, eu era igualzinha a você quando tinha a sua idade. Todo ser humano erra, não se cobre tanto. Se as pessoas não são capazes de te perdoar, é porque elas não te amam verdadeiramente. Amor sempre perdoa, porque amor é amor.
E foi ali que jaziram todas as lágrimas da menina. Chorou nos braços da mãe até mal conseguir falar de tanto soluçar, até não haverem mais lágrimas para serem postas pra fora. E vice-versa, também pediu que a mãe se abrisse, que contasse como estava se sentindo. Depois de se sentir tão sozinha durante tanto tempo, finalmente percebeu que a sua melhor amiga estava bem debaixo do seu nariz, e foi burra o bastante para não notar. Foi uma noite surreal, pois ali guardavam-se momentos raros, momentos que serão lembrados pela vida toda.
Marcadores:
Contos e Narrações
Assinar:
Postagens (Atom)
