09 agosto 2010

Peripécias de um cão sarnento.



     - Aêê!
     Adentrara o primeiro bar que encontrou pela frente. Sua animação característica chamou bastante a atenção alheia, uma vez que esbarrou em todos que encontrou pelo caminho antes de atingir o centro do salão.
     Em outro ponto, estava Alphonse, um homem alto, de longos cabelos escuros, sempre usando o tapa-olho, que finalizava uma conversa com uma moça qualquer e voltava sua atenção para as garrafas que tinha ali. Em seguida, notou atrás de si uma voz um tanto quanto familiar. Olhou e avistou a ruiva, sua capitã. Como sempre, era um tanto quanto desajeitada e meio desligada das coisas. Preferiu ficar quieto, não atrair a atenção. Chamou o garçom com o aceno de sua mão, logo, pedindo que ele lhe trouxesse uma garrafa de rum.
     - AAAAAAAAAAL-CHAN!
     Assim que avistou o companheiro, e extravagante como ela só, desatou a correr na direção dele. Largou todo o seu peso em cima de Alphonse, sem se importar em gritar e incomodar quem quer que estivesse ali. Era muito bom encontrar um conhecido em um local como aquele, principalmente se esse conhecido era o seu subcapitão, a quem ela tinha o costume de incomodar, embora ela acabasse por achar uma maneira de passar o tempo caso não o tivesse percebido.
     - Al-chan, que bom te ver! – O apelido carinhoso pelo qual ela o chamava estava sempre presente em suas falas, o que demonstrava, mesmo para quem não os conhecesse intimamente, que ela tinha especial carinho por aquele homem.
     Aquele grito foi como um trovão no meio do mar, uma tempestade que estava apenas começando. Alphonse suspirou, já de maneira cansada, sabendo o que iria aturar pela frente. A garrafa de rum havia chegado logo que a ruiva o abraçou. Ele não moveu-se nem um centímetro para frente. Cerrou os olhos, parecendo reunir toda a paciência que lhe restava.
     - Olá, capitã...
     A ruiva, entretanto, aparentemente não percebeu o tom de descaso na voz do companheiro. Estava animada demais para notar. Seus olhos corriam por todo lugar, ela parecia ter milhões de idéias na cabeça que queriam sair todas ao mesmo tempo, como um surto. Era assim o seu estado natural. Se deveria estranhar quando não a vissem assim.
    - Nani? Você parece cansado. Al-chan, já visitou a taberna ali da esquina? É muito boa, muito boa mesmo...
     E ela desatou a falar, falava tanto que nem respirava. A verdade é que era hiperativa, quase sempre estava assim, embora quase nunca sob efeito de álcool. Sorridente, deu um beijo no rosto do companheiro, depois de passar quase meia hora falando sem parar.
     - Sabe, Al-chan, os homens dessa cidade são muito malvados. Acredita que eu fui no mercado comprar alguns suprimentos pra nossa próxima viagem, e um homem tentou me bater? Sabe, ele era enorme... – disse, erguendo e balançando os braços para demonstrar o tamanho, tão serelepe e infantil.
     Nos primeiros minutos, Alphonse tentou ignorar todo aquele falatório da ruiva ao seu lado. Mesmo após o beijo que o deixou somente um pouco sem jeito, juntou toda a paciência para aguentar aquilo. Entretanto, na última palavra da garota, o pirata voltou a ter o olhar sério. Virou sua face para a ruiva, mantendo o seu único olho totalmente atento a ela.
      - Espere, você disse “bater”?
      Ela, no entanto, pareceu não ligar para o fato de que ele não escutara uma palavra do que ela havia dito, quase sempre era assim, o que não a desanimava a continuar falando feito uma matraca. Virou-se para ele e fez que sim com a cabeça, freneticamente.
     - Haaai! Porque eu ia comprar um tamarindo, e só tinha um, e o cara queria que eu desse meu tamarindo pra ele, e... sabe... eu não quis dar porque eu comprei e eu adoro tamarindo. Aí ele me bateu.
     - Ele te bateu como? Só diga, não me mostre.
     Melhor previnir do que remediar, foi o que ele pensou. Sabia muito bem como Mina era e se não especificasse, ela iria mostrar alguma parte do corpo que não devia ou iria bater no seu subcapitão, coisa que não duvidava. Virou-se totalmente para ela, ainda sentado, prestando atenção nas palavras da ruiva.
     - Err...
     Pensou durante alguns segundos, recordando a cena. Voltou a si e fez sinal que iria demonstrar com mímica. Com a mão direita, ela agarrou o próprio pescoço e começou a se debater, demonstrando que primeiro o homem a agarrou pelo pescoço e ela tentou se libertar. Depois, soltou o pescoço e fez o gesto de um soco, indicando que havia socado o homem. Em seguida, repetiu o mesmo gesto na barriga, finalizando ao dizer que ele a socou no estômago e ela ficou sem ar.
     - Foi mais ou menos assim, Al-chan.
     Alphonse a olhou com um certo ar de desaprovação, mas decidiu engolir. Preferia que ela falasse ao invés da mímica, entretanto, era sagaz, conseguiu entender o que ela queria dizer. Imaginou o porque de um rapaz tão grande querer o tal tamarindo da garota, apostaria pelo menos metade do que tinha que ele queria algo a mais do que a fruta somente. Coçou o queixo, levantando-se. Era ligeiramente mais alto que ela.                          Aproximou-se um pouco e a olhou diretamente no rosto, tendo agora um tipo de olhar diferente, meio calmo, mas com um quê de preocupação.
     - Você ainda está machucada?
     - Ah, doeu mais na hora. Eu tive dificuldade para respirar por um bom tempo. Minha barriga ainda dói um pouco, mas eu estou bem. Daijoubu nee, Al-chan. – meiga, balançou a cabeça em sinal positivo, sempre sorridente.
     Alphonse pensou que não tardaria para ter uma conversa pessoal com o tal homem. Não tinha muito medo dessas coisas e era normal ver Mina agindo daquele jeito. Sabia que se dissesse para ela que iria cuidar do rapaz ela iria intervir e dizer que não valia a pena e coisas do tipo. Entretanto, para não deixar pista de que iria fazer algo à respeito, decidiu comentar sobre algo que a distraísse.
     - Eu te compro uma cesta de tamarindos. Que tal?
     O homem esboçou um pequeno sorriso, algo muito raro de se ver no rosto do subcapitão. Talvez aquele fosse o primeiro sorriso que Mina via no rosto de Alphonse.
     - Hontoni, Al-chan?  Sabe, eu adoro tamarindos. Quando eu era pequena, eu ouvia as pessoas falando e pensei "que nome estranho, tamarindo", e sabe, eu sempre quis comer, então eu fui e comprei, e...
     Estava começando a falar demais de novo, então decidiu se calar e somente agradecer a ele. Sabia que seu falatório o incomodava às vezes. No entanto, o sorriso que ele esboçara chamou a atenção da ruiva, era a primeira vez que o via sorrir, pelo menos de uma forma tão sincera. Achou bonito.
     - Arigatou, Al-chan.
     O sorriso, no entanto, foi desaparecendo do semblante do pirata. Apenas manejou com a cabeça para ela, de modo que dissesse que não precisava agradecer. Logo, voltou a sentar no seu lugar, cerrando os olhos, tomando um pequeno gole do seu rum. Parecia bem calmo e relaxado e o sorriso já havia sumido de sua faceta.
     - Waaa...
     A ruiva espreguiçou-se. O dia tinha sido cheio, embora ela ainda não tivesse gastado toda a energia, sentia-se levemente cansada.
     - Al-chan... dê-me instruções sobre nosso próximo curso.
     - Devemos ficar mais alguns dias por essa cidade. Espere no mínimo três dias por aqui, capitã. – respondeu ele, coçando a lateral do rosto.
     Apanhou o copo novamente e deu um gole, acabando com o mesmo. Apanhou a garrafa e colocou mais dentro de seu recipiente. Não sabia quanto tempo ficaria ali, mas de uma coisa sabia; não iria passar de uma semana.
     - Aaah, tá. Então ainda posso ir ao mercado e comprar meu tamarindo. Porque sabe, certa pessoa roubou o meu. - falava do homem que a agrediu. Apesar da situação, ela parecia tão meiga como sempre foi. Foi quando teve uma idéia. - Ei, Al-chan... será que aqui tem suco de tamarindo?
     - Acho que não tem suco de tamarindo.
     - Droga!
     Deixou que as palavras de Mina fossem as últimas. Ficou ali por um tempo, bebendo gole por gole da sua garrafa de rum. Logo, levantou-se de seu lugar, aproximando-se da ruiva. Com sua voz grave e um pouco rouca, pronunciou-se com a garrafa em mãos. Estava cansado, o dia tinha sido puxado, e mesmo o ambiente não fora o suficiente para animá-lo a ponto de fazê-lo perder o sono.
     - Mina, estarei no navio.
     Ajeitou o chapéu, sem esboçar sorrisos. Logo, começou a caminhar para a porta de saída do recinto.
     - Já vai, Al-chan? Daijoubu, encontrarei você mais tarde.
     Dito isso, aproximou-se do homem e o abraçou. Embora de poucas palavras, Alphonse era a pessoa em quem Mina mais confiava, e com mais se dava bem. Ele a protegia, mesmo à distância e em segredo, e estava sempre por perto. Baseado nisso, meiga, ela acenou em despedida.
     - Ja ne, Al-chan. Cuidado na rua.

Este post é em homenagem a alguém muito, mas muito especial pra mim, o Guto. Ele vai entender o significado deste textinho.  

2 comentários:

- Morgana disse...

Bonito texto. :) Singelo.

Leviatã disse...

* O homenageado. * (Caham...!)
Aeee, texto foda, Mari. *-* Adorei ele! Alphonse como sempre, fazendo seus papéis de bad boy fodão. (H) AUShuash!
Adorei mesmo, obrigado querida. :DDD
Keep it up!

Beijos. X*